21/05/09

Juntos, no topo do mundo.

E então, eu, pouco a pouco, ia engolindo os pequenos glóbulos de luz em volta da minha cabeça.
Enquanto eu te dizia: o mundo acabou e, por isso, todos vamos ficar bem.
Você simplesmente concentrava-se em vestir seu vestido de algodão, um rosa florido... Ele caiu muito bem em você. Eu disse isso para você e você simplesmente sorriu.
Eu não conseguia ver teu rosto, teu cabelo não permitia.

Começamos a falar sobre quando eu te criei, com cada pedaço de carne que caia do meu próprio corpo. Alucinado, ia costurando os pedaços até ter teu corpo, e depois, ao te amar, te dei vida.
Eu sei, nosso relacionamento era muito estranho.
Eu te explicava que qualquer coisa que você amasse te traria uma cicatriz. Você, finalmente, percebeu que eu estava falando de você...Com um sorriso disfarçado, você quis mudar o assunto...
Começou a falar sobre meu funeral e quem iriam ser teus convidados. Quem iria querer me ver no meu maior momento de glória?
Você disse que todos iriam...

Enquanto eu permanecia morto na cama, você fitava-me com teus olhos amendoados. Eu pensando que as pessoas não poderiam pensar assim de mim, que não era justo e, você rindo dos meus pensamentos. Você tinha pensamentos bem diferentes do teu criador.
Tocou minha mão, e o frio de um bloco de gelo atravessou por todo meu corpo. Arrepiei-me até o último fio de cabelo.
Mas quando te criei, prometi te aquecer também.
Pedi para que deitasse comigo, mas foi em vão, preferiste continuar a me olhar.
Você gostava de toda aquela dramaticidade, não?

Sempre sorrindo, parecia que ali era realmente o lugar que queria estar, ao meu lado.
Sua pele, da mesma cor da lua, reluzia até mesmo no escuro. Eu tentava misturar teu corpo do meu, mas o que eu recebia eram risadas.
Eu queria celebrar minha criação, você queria divertir-se com minha paixão.
Eu cheguei ao teu ouvido e disse que te amava, você olhou para mim. Teus lábios tão perto dos meus, teus lábios feitos com minha própria carne.
Era a primeira vez em que nos beijávamos...

Lembrei de quando o mundo apontava uma faca afiada para meu coração, quando ninguém prestava... Quando tudo era cinza.
Agora, nós estávamos juntos, sendo um ser só. Estávamos, só nós dois, no topo do mundo.
Diferentemente de todos aqueles que um dia jogaram pedras em mim, que não queriam me salvar... Eu lhe dei essa escolha e você quis me salvar.
Não deixou-me cair nas mãos erradas, mãos essas, que quebrariam todos meus ossos e deixariam-me no chão, sem poder me mover.

Enquanto te beijava, um misto de dor e paixão corria por minhas veias... Eu sabia que se você quisesse, já estaria longe.
Você me deu sua mão, e dessa vez eu não sentia frio... Talvez, ali, eu já estivesse morto.
Um corpo ambulante, que só estava ali para estar com você.
Enquanto eu pensava em correr, algo esmagava meu coração... Quando decidi parar, foi quando te concebi de verdade.
Estou muito feliz por ter te criado.

Mas, no fim... Eu sabia que nosso amor nos separaria.
Eu tive que tirar sua vida... Eu não queria que outro pudesse ter o prazer de te ter.
Eu matei o que eu criei...
...Na verdade, eu deveria ter matado-me.

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